e dessa liquidez, b e b a

rio que transborda ~ águas de dilúvio ~ desaguando em qualquer mar ~ todo o mar ~ maré cheia

quinta-feira, 27 de março de 2008

a nuvem

em brasília é assim:
as nuvens não entram num consenso, nunca. não há união. quando isso acontece é por pura inveja das demais, o que não faz do 'acordo' um consenso. elas são individualistas mesmo. aqui é cada uma por si e ponto. qualquer dia e qualquer hora é tempo de anunciar pras colegas: VOU CHOVER! e pronto. exerce toda a sua independência e liberdade de nuvem chovendo ali mesmo, no meio de tantas outras.
há as que escorrem muito, chovem quase um drama inteiro, que chega dá um nó na tal. outras são mais românticas, pingam num canto, ali naquele outro, uma gotinha pr'aquela flor, outra naquele camarada passando ali embaixo, e vão assim, nesse ritmo quase respirado entre gota-e-outra. quando bate a inveja, a coleguinha de céu exerce também seu egoísmo: GALERA, TOU PRECIPITANDO! e precipita mesmo. precipita xôxa, precipita choro, daquele chorinho contido, de quando te falam: não chora, não, bestalhão! outras, mais avoadas, precipitam alegria e fazem quase um samba de gotas na terra, grama e todo o resto. não ligam não, pros olhares das outras e vão assim, desfilando suas gotas que sambam alegria em terra de ninguém.
é assim.

hoje uma nuvem braba e incansável me seguiu. ela jorrava cada gota d'água que parecia mais raiva que independência, mais fervor que liberdade de não ter que dar satisfação às companheiras de céu, mais choro berrado que chuva. choveu só, choveu forte, choveu TUDO de nuvem que tinha, e se fez viva em cada gota. e fez gota grossa, fez gota quente e fez gota doída, e era cada uma que me pingava.. que me inundou toda!

tive que parar, olhar no interior da alma tal da nuvem e gritar: ei, nuvem! pára de se doer assim que daqui eu tou sentindo essa tristeza e esse rancor, minha filha! olha ali pro lado, olha, olha! tá vendo aquela amiguinha ali, toda cumulosa?! então, meu amor.. sorria em formas volumosas e formosas. tá bom, vai.. para isso, tire toda essa umidade de você. vai! chova em mim, chova sim, mas me garanta que cada gota dessa chuva só vai servir pra lavar teu sentir. combinado?!
e assim fomos pra casa. eu e a nuvem, ela sentindo-se menos só, eu, sentindo seus lamentos de alívio.
e foi só botar minh'alma à escuta integral da nuvenzinha e fazer aquela curva que PRONTO! o pranto todo passou, e ela chega suspirou. um suspiro tão forte que as árvores todas sentiram e balançaram seus galhos, fazendo cada folha cair ritmada e aliviada.
ela me sorriu sua última gota, que foi tão morna, que entendi: agora estava lavada a nossa alma.


ela voltou a sorrir pro dia.

Um comentário:

Antonio Araújo Jr. disse...

Ahhhh "choveu tudo de nuvem que tinha"

sigo esperando trovoada e trovadas suas