e dessa liquidez, b e b a

rio que transborda ~ águas de dilúvio ~ desaguando em qualquer mar ~ todo o mar ~ maré cheia

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sexta-feira, 4 de abril de 2008

vício

- sou viciado em você.
é o que ele disse ao ver que o relacionamento estava com o laço quase-que-desfeito. a chuva rala já começara a mostrar sua decepção noturna, pingando ora aqui, ora acolá no vidro do carro.
- viciado?! taí. o vício é egoísta, meu bem. o amor, não. o amor tem as portas sempre abertas.

silêncio.

era o tal do silêncio ensurdecedor. ele, que era mesmo surdo, estava habituado ao silêncio. era sempre assim; ela falava pelos cotovelos, falava do que sabia e do que não sabia, principalmente do que não sabia. e cantarolava melodias, recitava poesias, falava do dia, das cores, dos amigos, dos antigos, do vizinho. ele, lacônico. como não sabia dizer nada por dizer, calava. e ela dizia tudo o que queria, e ele escutava. ele não entendia e não respondia, escutava. e mesmo quando entendia, calava.
e ela rogava aos deuses pra que ele falasse, um palavra ao menos! nem que fora do tom, nem que seja a agulhada que ela esperava receber. e ele emudecia. e fechava os olhos e suspirava longo. talvez elaborasse dizer alguma frase pronta. nada!
nada!


[continua..]

quinta-feira, 27 de março de 2008

a nuvem

em brasília é assim:
as nuvens não entram num consenso, nunca. não há união. quando isso acontece é por pura inveja das demais, o que não faz do 'acordo' um consenso. elas são individualistas mesmo. aqui é cada uma por si e ponto. qualquer dia e qualquer hora é tempo de anunciar pras colegas: VOU CHOVER! e pronto. exerce toda a sua independência e liberdade de nuvem chovendo ali mesmo, no meio de tantas outras.
há as que escorrem muito, chovem quase um drama inteiro, que chega dá um nó na tal. outras são mais românticas, pingam num canto, ali naquele outro, uma gotinha pr'aquela flor, outra naquele camarada passando ali embaixo, e vão assim, nesse ritmo quase respirado entre gota-e-outra. quando bate a inveja, a coleguinha de céu exerce também seu egoísmo: GALERA, TOU PRECIPITANDO! e precipita mesmo. precipita xôxa, precipita choro, daquele chorinho contido, de quando te falam: não chora, não, bestalhão! outras, mais avoadas, precipitam alegria e fazem quase um samba de gotas na terra, grama e todo o resto. não ligam não, pros olhares das outras e vão assim, desfilando suas gotas que sambam alegria em terra de ninguém.
é assim.

hoje uma nuvem braba e incansável me seguiu. ela jorrava cada gota d'água que parecia mais raiva que independência, mais fervor que liberdade de não ter que dar satisfação às companheiras de céu, mais choro berrado que chuva. choveu só, choveu forte, choveu TUDO de nuvem que tinha, e se fez viva em cada gota. e fez gota grossa, fez gota quente e fez gota doída, e era cada uma que me pingava.. que me inundou toda!

tive que parar, olhar no interior da alma tal da nuvem e gritar: ei, nuvem! pára de se doer assim que daqui eu tou sentindo essa tristeza e esse rancor, minha filha! olha ali pro lado, olha, olha! tá vendo aquela amiguinha ali, toda cumulosa?! então, meu amor.. sorria em formas volumosas e formosas. tá bom, vai.. para isso, tire toda essa umidade de você. vai! chova em mim, chova sim, mas me garanta que cada gota dessa chuva só vai servir pra lavar teu sentir. combinado?!
e assim fomos pra casa. eu e a nuvem, ela sentindo-se menos só, eu, sentindo seus lamentos de alívio.
e foi só botar minh'alma à escuta integral da nuvenzinha e fazer aquela curva que PRONTO! o pranto todo passou, e ela chega suspirou. um suspiro tão forte que as árvores todas sentiram e balançaram seus galhos, fazendo cada folha cair ritmada e aliviada.
ela me sorriu sua última gota, que foi tão morna, que entendi: agora estava lavada a nossa alma.


ela voltou a sorrir pro dia.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

O jogo da Amarelinha


Toco tu boca, con un dedo toco el borde de tu boca, voy dibujándola como si saliera de mi mano, como si por primera vez tu boca se entreabriera, y me basta cerrar los ojos para deshacerlo todo y recomenzar, hago nacer cada vez la boca que deseo, la boca que mi mano elige y te dibuja en la cara, una boca elegida entre todas, con soberana libertad elegida por mí para dibujarla con mi mano en tu cara, y que por un azar que no busco comprender coincide exactamente con tu boca que sonríe por debajo de la que mi mano te dibuja.Me miras, de cerca me miras, cada vez más de cerca y entonces jugamos al cíclope, nos miramos cada vez más de cerca y nuestros ojos se agrandan, se acercan entre sí, se superponen y los cíclopes se miran, respirando confundidos, las bocas se encuentran y luchan tibiamente, mordiéndose con los labios, apoyando apenas la lengua en los dientes, jugando en sus recintos donde un aire pesado va y viene con un perfume viejo y un silencio. Entonces mis manos buscan hundirse en tu pelo, acariciar lentamente la profundidad de tu pelo mientras nos besamos como si tuviéramos la boca llena de flores o de peces, de movimientos vivos, de fragancia oscura. Y si nos mordemos el dolor es dulce, y si nos ahogamos en un breve y terrible absorber simultáneo del aliento, esa instantánea muerte es bella. Y hay una sola saliva y un solo sabor a fruta madura, y yo te siento temblar contra mi como una luna en el agua.


Julio Cortázar

Rayuela, Capítulo 7

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

obra-prima anatômica




(...) disse isso e me fitou com olhos aguados. Parecia mendigar uma resposta que expressasse um mínimo de cumplicidade. Fiquei mudo, obviamente, talvez por alguns minutos, e ela entendeu meu silêncio absoluto como sendo de fato um silêncio absoluto, recolheu sua bolsa numa lentidão torturante e foi embora, deixando o copo cheio.

Caro amigo, se não somos chimpanzés é porque temos a melancólica capacidade de chorar sozinhos durante as madrugadas.



-trecho do conto 'Clichê Romântico' de Daniel Galera.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

não se afobe não.. (O QUÊ?)

(o quando: de segunda 17 pra terça 18)

ai, gentem, ÓTEMO!
realmente era o que me faltava: acordar gemendo de dor, ir pra emergência do hospital às quatro e meia da madrugada, esperar muito tempo pra ser atendida enquanto rodo da cadeira testando mil posições pra ver em qual delas a dor é menor, não achar essa posição de modo a ficar encolhida em mim mesma, finalmente ser arrastada pro box, levar várias agulhadas, ser dopada infinitamente até que a dor se dê por vencida, ficar no soro horas a fio, fazer mil exames, se contorcer de dor na frente de todos os atendentes com cara de bunda, enxer a bexiga de água pra fazer um exame e descobrir que naquele caso não era necessário, gritar pela Helena (sem sequer lembrar quem era Helena) pedindo mais buscopan ou dipirona ou qualquer outro remédio daqueles que curasse aquela dor duzinférno, fazer xixi no potinho tendo uma só mão disponível (porque a outra estava lá no alto junto com o soro), ver a cara da dona Cristina me falando pra dormir, ouvir o playboy do lado dizer que não foi até ali pra ficar tomando soro, fazer mais exames... aliás! mil exames pra descobrir o quê mesmo? que ahh.. vou ter de marcar uma endoscopia pra confirmar o que todos já pensam a essa altura da madrugada, que dizer, DEZ HORAS DA MANHÃ: que provavelmente seja uma gastritre.
de fundo emocional, óbvio.
ÓBVIO!

agora nem mais agoniada, preocupada, aperreada, estressada, eufórica, ocupada e nem extremamente feliz posso ser-estar-ficar. engolir as displicências de dona Kika? negativo! terei de revidar, senão meu estômago sai pela boca.
não posso morrer de amores, senão morro de dores.
assim que abro os olhos não posso pensar no que o dia tem a me oferecer, senão me fodo.
pensar nos seminários e relatórios? aaah.. pra quê é que existem as outras pessoas do grupo? comer aquilo tudo que eu como? ah nem...

me disseram simplesmente para não ser tão assim, tão eu.
serei a pessoa mais calma, sem tiques nem estalos eufóricos, monótona, padrão, obediente e entediante que vocês já conheceram.. que tal?
há-há, né meu bem!
chora!




agora, vê se pode..